Quercus - Associação Nacional de Conservação da Natureza
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O milagre da multiplicação da água?
A água é um bem escasso, e a água potável uma percentagem ínfima da que está disponível no planeta. Mas, além das medidas de poupança, existem formas de a multiplicar. Muito caras ou tecnologias ainda pouco conhecidas, são diversos os obstáculos. Mas é uma realidade que Portugal ainda mal vislumbrou.

A seca profunda que afectou Portugal este ano leva-nos a pensar o que fazer se estes fenómenos se tornarem cada vez mais frequentes. O consumo de água tem vindo a disparar, assim como o consumo de energia, e há quem dificilmente aceite ideias como a de lavar menos vezes o automóvel. Mas o recurso é de facto finito e o seu valor tende a crescer cada vez mais. A par das necessárias medidas de poupança, também se começa a olhar em Portugal para tecnologias de extracção de água potável e de reaproveitamento das águas usadas.

O ministro do Ambiente, Nunes Correia, frisou este Verão que investir em centrais de dessalinização seria demasiado caro para Portugal, sobretudo pelos gastos em energia, mas o Sul de Espanha está cheio delas, assim como a ilha de Porto Santo, na Madeira, e as Canárias. Aqui funciona uma das primeiras centrais do seu tipo no mundo, que abastece 100% da população (ver caixa).

No Médio Oriente e em países em que a água é evidentemente um recurso escasso, como Cabo Verde ou Israel, a tecnologia e o engenho têm sido o principal recurso, em nome da sobrevivência.

Por seu turno, o Grupo Pestana também pretende instalar no Algarve uma unidade de dessalinização da água do mar para abastecer sete hotéis e dois campos de golfe. O Algarve é a região, a par do Alentejo, que se tem debatido com maiores problemas de abastecimento de água, sobretudo porque no Verão multiplica a população e o consumo de recursos com a enchente de turistas.

Regiões díspares

Enquanto Lisboa e Vale do Tejo se abastece com alguma abundância da albufeira de Castelo de Bode e do rico aquífero subterrâneo da península de Setúbal, não pensando muito nos dias de penúria, outras regiões debatem-se já com problemas graves, nomeadamente o Alentejo, onde as albufeiras atingiram este ano níveis muito abaixo da média, chegando muitas abaixo dos níveis mínimos para preservação da qualidade das águas.

No Algarve, as medidas de poupança foram mais longe do que em qualquer outra região. As autarquias cortaram nos consumos considerados secundários, encerrando piscinas cobertas, chuveiros, bicas e fontanários e reduzindo as regas de jardins públicos. Recorreu-se aos antigos furos camarários, para preservar as reservas as albufeiras. No mês de Julho, as reduções tinham ultrapassado os 20% face a igual período do ano anterior.

Em Lisboa, há um dado curioso. Contrariando o habitual pico do Verão, o consumo foi de menos 7,8% entre os meses de Junho e Agosto, em relação ao ano passado. O que poderá dever-se a uma maior sensibilização da população, perante o cenário de seca que se viveu no país, em que praticamente não houve precipitação desde o Outono anterior, sobretudo no Sul.

Depois há ainda a água que se perde. A média nacional ronda qualquer coisa como os 40%. No caso de Lisboa, 24% da água da água que entra na cidade perde-se antes de chegar ao consumidor ou não é contabilizada, uma vez que nesta percentagem é incluída também a água “desviada” e as perdas económicas. O objectivo da EPAL é reduzir para os 20%.

Plano nacional exige maior eficiência

Em 15 de Setembro de 2005, de acordo com o relatório quinzenal da Comissão da Seca 2005, divulgado a 29 de Setembro, todo o território continuava “em situação de seca com intensidade moderada a extrema, verificando-se o desagravamento da intensidade da seca em parte das regiões do Norte e Centro”.

A percentagem de território em seca severa ficava assim nos 34% e o índice de seca extrema passava a afectar 59% do país, face aos mais de 70% nesta situação em 31 de Agosto. 44 concelhos recorriam nessa altura ao abastecimento das populações por autotanques (mais de 48 mil pessoas) e 26 tiveram reduções dos períodos de abastecimento (52 mil pessoas afectadas).

Já em 2001 o Programa Nacional para o Uso Eficiente da Água alertava para a necessidade de tomar medidas atempadas, prevendo situações de carência. De acordo com este documento, a procura de água em Portugal está actualmente estimada em cerca de 7 500 x 106 m3 por ano, o que ronda os 1,65% do Produto Interno Bruto (PIB) português. A agricultura é claramente o maior utilizador de água em Portugal (87%), cabendo ao abastecimento urbano às populações 8% e à indústria 5% dos consumos.

O plano aponta ainda o sector da agricultura como o menos eficiente, com 88% de perdas. Quanto ao consumo urbano, a actual eficiência de utilização da água é de cerca de 58%, mas o programa nacional exige uma meta de pelo menos 80% de eficiência para este sector.

Carla Gomes
QUERCUS Ambiente n.º 16 (Outubro 2005)
 
       
  Central de Porto Santo é pioneira

A destilação e a osmose inversa são os dois processos usados para tornar potável a água do mar, por dessalinização. Esta última tecnologia é mais recente. O grande problema das centrais dessalinizadoras é a sua rentabilidade, uma vez que se gasta muita energia para obter água, que por isso atinge custos não comparáveis com os das captações subterrâneas ou albufeiras.

É uma tecnologia que funciona essencialmente onde não existem alternativas de abastecimento para as populações, o que acontece em certas regiões de Espanha, em África e no Médio Oriente, por exemplo. Espanha tem já uma centena de centrais para abastecimento urbano, e pretende duplicar a sua capacidade dentro dos próximos anos. A de Almeria (na foto) é mesmo a maior da Europa.

Face ao problema dos custos, têm vindo a ser estudadas alternativas, como o uso de energia eólica ou solar. A empresa Ao Sol está a desenvolver, em parceria com o Departamento de Energias Renováveis do Instituto Nacional de Engenharia, Tecnologia e Inovação (INETI), um sistema de dessalinização alimentado a energia solar.

Na ilha de Porto Santo, na Madeira, funciona uma das três primeiras centrais de dessalinização do Mundo que adoptaram a tecnologia da osmose inversa, um processo de purificação da água através de uma membrana (as outras surgiram nos Estados Unidos e na Arábia Saudita). Propriedade do Governo Regional da Madeira e gerida pela IGA - Investimentos e Gestão da Água, SA, a Central Dessalinizadora do Porto Santo começou a funcionar em 1979.

“A ilha não tem outras origens de água. A única alternativa seria transportar água de barco”, explica ao Quercus Ambiente Nuno Pereira, da IGA. Da antiga central não resta hoje quase nada. Através de sucessivas remodelações, a capacidade instalada foi aumentada dos originais 500 metros cúbicos diários para 6 mil. É preciso não esquecer que, apesar de ter poucos milhares de habitantes, a ilha recebe uns 20 mil turistas todos os anos. “35 a 40% da capacidade seria suficiente se fosse apenas para a população da ilha”.

Apesar dos custos de produção, Nuno Pereira explica que “nas grandes centrais estes acabam por ser atenuados”. O facto de haver ligações entre as empresas de fornecimento de electricidade e as centrais, como acontece nalguns países, também mitiga os custos. A IGA vai equilibrando as receitas com a venda de águas residuais para regas. Além desta central, um dos hotéis da ilha já construiu a sua própria unidade, e outro está prestes a construir, neste caso com recurso á energia eólica.

A destilação é um processo mais antigo, também usado para a dessalinização, embora seja mais dispendioso energeticamente. A primeira central surgiu no Egipto em 1912.

Carla Gomes
 
       
 
       
  AquaStress estuda região do Guadiana

O Projecto AquaStress, promovido pela Comissão Europeia e que envolve a Faculdade de Engenharia da Universidade do Porto, foi apresentado publicamente em Beja, no passado dia 13 de Outubro. São seus princípios que “a mitigação do stress hídrico, a uma escala regional, depende não só das inovações tecnológicas, mas também do desenvolvimento de novas ferramentas e práticas de gestão integrada de recursos hídricos” e que “a gestão e planeamento da água deverão assumir uma abordagem de participação de todas as partes envolvidas, incluindo utilizadores, decisores e políticos, a todos os níveis”
O Projecto AquaStress tem por base o estudo de oito regiões localizadas em diferentes países da Europa e Norte de África.

A escolha destes locais deve-se ao facto de apresentarem problemas de escassez de água. No caso de Portugal a área de estudo corresponde à região ocupada em Portugal pela bacia hidrográfica do rio Guadiana, “onde existe uma forte limitação dos recursos disponíveis, em particular nos anos secos, bastante frequentes, e agravada pelos usos crescentes da água em Espanha, nas últimas décadas”.

O projecto, que conta com o apoio do Empreendimento de Fins Múltiplos de Alqueva EDIA), está organizado em três fases: a caracterização das regiões seleccionadas e respectivos problemas de stress hídrico, a identificação, em colaboração com as principais partes interessadas, das opções de mitigação preferenciais e o teste de soluções de mitigação de acordo com as necessidades e expectativas das partes interessadas/afectadas.
 
       
 
       
  Quercus defende reutilização das águas

Uma das tecnologias que ainda não viram a luz do dia em Portugal é a reutilização da água, que tanto pode fazer-se dentro de uma habitação como com as águas residuais das estações de tratamento. O Sistema Multimunicipal de Saneamento de Águas Residuais da Península de Setúbal (Simarsul), por exemplo, está a estudar um sistema de reutilização dos efluentes, que poderão ser aproveitados para rega na agricultura ou até mesmo para combater os fogos florestais, um dos usos de água que mais tem aumentado nos últimos anos, face ao elevado número de incêndios.

A Quercus propôs a adopção de um sistema de reutilização das águas nas casas portuguesas, citando o exemplo da Mata de Sesimbra, onde está prevista a implementação de um mecanismo com esse objectivo, e do Parque Oriente, em Lisboa. A ideia é fazer regressar ao circuito doméstico as águas usadas, em vez de descarregar o autoclismo com água potável acabada de sair da rede pública.

A associação ambientalista frisa que estas tecnologias têm sido aplicadas noutros países, como a Dinamarca, e propõe que a partir de 2006 se torne obrigatória a reutilização de água nos novos edifícios. “Tal passa por introduzir as mais adequadas tecnologias disponíveis na área da reciclagem de águas cinzentas e de águas da chuva. O objectivo é poupar cerca de 65% da água”, frisa um comunicado da Quercus, divulgado a 19 de Julho, em plena seca.

Segundo explica o comunicado, a poupança de água é conseguida através de redutores de fluxo nas torneiras adequadas (lava loiça, lavatório, duche, bidet), com uma capacidade de reduzir o volume de água potável consumida em cada uma das torneiras em que são aplicados em aproximadamente 50%, sem reduzir o conforto resultante para o utilizador final; por outro lado, há a reciclagem das denominadas águas cinzentas (provenientes das máquinas de lavar, dos lava loiças, lavatórios, bidets, duches) e das águas pluviais, para serem utilizadas nas descargas das sanitas, nas máquinas de lavar roupa e loiça, na rega dos espaços verdes e na lavagem dos automóveis e dos espaços exteriores.

Podem ainda escolher-se os electrodomésticos que usem água com a mais elevada classe de eficiência, reduzindo assim também o consumo de água e electricidade. O volume de efluentes canalizados para as estações de tratamento passa também a ser menor.

Algumas medidas simples para reduzir a “factura”

- ajuste o autoclismo para o volume de descarga mínimo, nas casas-de-banho
- use preferencialmente o duche em alternativa ao banho de imersão;
- reduza a utilização de água corrente para lavar ou descongelar alimentos (com utilização alternativa de alguidar), e para lavagem de louça ou roupa (com alguidar);
- ponha a máquina da roupa a lavar sempre na carga máxima;
- feche a torneira durante a para escovar os dentes e durante o duche, quando não está a usar;
- fechar um pouco as torneiras de segurança, para reduzir o caudal;
- reutilize a água sempre que possível;
- não lave o carro com mangueira; use um balde com água e esponja.
 
       
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