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   20-05-2006 contacte-nos | pesquisa 
 
DESTAQUE
O milagre da multiplicação da água?

A seca profunda que afectou Portugal este ano leva-nos a pensar o que fazer se estes fenómenos se tornarem cada vez mais frequentes. O consumo de água tem vindo a disparar, assim como o consumo de energia, e há quem dificilmente aceite ideias como a de lavar menos vezes o automóvel. Mas o recurso é de facto finito e o seu valor tende a crescer cada vez mais. A par das necessárias medidas de poupança, também se começa a olhar em Portugal para tecnologias de extracção de água potável e de reaproveitamento das águas usadas.

O ministro do Ambiente, Nunes Correia, frisou este Verão que investir em centrais de dessalinização seria demasiado caro para Portugal, sobretudo pelos gastos em energia, mas o Sul de Espanha está cheio delas, assim como a ilha de Porto Santo, na Madeira, e as Canárias. Aqui funciona uma das primeiras centrais do seu tipo no mundo, que abastece 100% da população (ver caixa).

No Médio Oriente e em países em que a água é evidentemente um recurso escasso, como Cabo Verde ou Israel, a tecnologia e o engenho têm sido o principal recurso, em nome da sobrevivência.

Por seu turno, o Grupo Pestana também pretende instalar no Algarve uma unidade de dessalinização da água do mar para abastecer sete hotéis e dois campos de golfe. O Algarve é a região, a par do Alentejo, que se tem debatido com maiores problemas de abastecimento de água, sobretudo porque no Verão multiplica a população e o consumo de recursos com a enchente de turistas.

Regiões díspares

Enquanto Lisboa e Vale do Tejo se abastece com alguma abundância da albufeira de Castelo de Bode e do rico aquífero subterrâneo da península de Setúbal, não pensando muito nos dias de penúria, outras regiões debatem-se já com problemas graves, nomeadamente o Alentejo, onde as albufeiras atingiram este ano níveis muito abaixo da média, chegando muitas abaixo dos níveis mínimos para preservação da qualidade das águas.

No Algarve, as medidas de poupança foram mais longe do que em qualquer outra região. As autarquias cortaram nos consumos considerados secundários, encerrando piscinas cobertas, chuveiros, bicas e fontanários e reduzindo as regas de jardins públicos. Recorreu-se aos antigos furos camarários, para preservar as reservas as albufeiras. No mês de Julho, as reduções tinham ultrapassado os 20% face a igual período do ano anterior.

Em Lisboa, há um dado curioso. Contrariando o habitual pico do Verão, o consumo foi de menos 7,8% entre os meses de Junho e Agosto, em relação ao ano passado. O que poderá dever-se a uma maior sensibilização da população, perante o cenário de seca que se viveu no país, em que praticamente não houve precipitação desde o Outono anterior, sobretudo no Sul.

Depois há ainda a água que se perde. A média nacional ronda qualquer coisa como os 40%. No caso de Lisboa, 24% da água da água que entra na cidade perde-se antes de chegar ao consumidor ou não é contabilizada, uma vez que nesta percentagem é incluída também a água “desviada” e as perdas económicas. O objectivo da EPAL é reduzir para os 20%.

Plano nacional exige maior eficiência

Em 15 de Setembro de 2005, de acordo com o relatório quinzenal da Comissão da Seca 2005, divulgado a 29 de Setembro, todo o território continuava “em situação de seca com intensidade moderada a extrema, verificando-se o desagravamento da intensidade da seca em parte das regiões do Norte e Centro”.

A percentagem de território em seca severa ficava assim nos 34% e o índice de seca extrema passava a afectar 59% do país, face aos mais de 70% nesta situação em 31 de Agosto. 44 concelhos recorriam nessa altura ao abastecimento das populações por autotanques (mais de 48 mil pessoas) e 26 tiveram reduções dos períodos de abastecimento (52 mil pessoas afectadas).

Já em 2001 o Programa Nacional para o Uso Eficiente da Água alertava para a necessidade de tomar medidas atempadas, prevendo situações de carência. De acordo com este documento, a procura de água em Portugal está actualmente estimada em cerca de 7 500 x 106 m3 por ano, o que ronda os 1,65% do Produto Interno Bruto (PIB) português. A agricultura é claramente o maior utilizador de água em Portugal (87%), cabendo ao abastecimento urbano às populações 8% e à indústria 5% dos consumos.

O plano aponta ainda o sector da agricultura como o menos eficiente, com 88% de perdas. Quanto ao consumo urbano, a actual eficiência de utilização da água é de cerca de 58%, mas o programa nacional exige uma meta de pelo menos 80% de eficiência para este sector.

Carla Gomes
QUERCUS Ambiente n.º 16 (Outubro 2005)